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1. Um pouco de minha trajetória pessoal
No início deste nosso diálogo, permitam-me que partilhe minha experiência de contato com a aids. Tenho 40 anos e faz 20 que encontrei pela primeira vez, doentes com HIV.
Era o ano de 1988. Recentemente fizera minha profissão religiosa na comunidade dos capuchinhos. Um dos meus colegas era médico e começara a fazer sua especialização ou residência" na área das doenças infecto-contagiosas, no Hospital Santa Casa. Pode-se imaginar que esta não é a trajetória comum de um frade capuchinho... por isso seguidamente ia visitá-lo para demonstrar minha comunhão fraterna a um frade "atípico". Para visitar o frade e médico, que trabalhava e estudava na Enfermaria 16 - exatamente aquela onde estavam internadas as pessoas acometidas por doenças infecciosas - precisava passar pelos doentes de aids.
Aquelas visitas, relativamente freqüentes, fizeram-me de algum modo, entrar em contato com a aids. Depois de algum tempo, passei a visitar as pessoas nos leitos, mais como forma de demonstrar minha auto-comiseração, que demonstrar o rosto misericordioso de Deus.
Para retratar mais claramente o que eu via naqueles leitos da Santa Casa no final dos anos 80, lembro especialmente de uma visita. Cheguei na enfermaria e fui para a sala onde ficavam os residentes estudando e discutindo os casos. Uma mulher gritava, quase se forças. Perguntei ao frade médico, por que ela gritava tanto. Ele respondeu-me aflito. "Não vamos falar dela, pois esta mulher derruba a onipotência da medicina. Fiz tudo o que podia, tomei todas as providências necessárias, não há mais nada a fazer...Só esperar a morte..."
Este era o quadro da aids. Pessoas cadavéricas, magras, esperando a morte chegar. Não havia o que fazer a não ser ter pena. Era isto que significava a aids para mim naquele período.
Alguns anos mais tarde, em 1995, faleceu um amigo, repentina e em situação pouco clara. Sua morte e funeral deram-se no maior sigilo e discrição possíveis. Soubemos depois que era soropositivo, coisa que se contava com vergonha, somente para os mais achegados. Nem a proximidade do vírus despertou a consciência da minha vulnerabilidade. Aids era coisa dos outros.
Em 1999, por acaso ou providência - entrei no mundo da aids. Fui convidado pela minha província a fazer parte de uma fraternidade que se dedicaria à acolhida e acompanhamento de pessoas vivendo com HIV e aids. Tratava-se de uma Casa aonde as pessoas, vindas do interior do Estado, poderiam hospedar-se para fazer suas consultas, exames, início de tratamento. Confesso que sabia bem pouco de aids. O que me movia era o desejo de servir e a oportunidade de atualizar o carisma capuchinho de estar entre as pessoas afetadas por uma nova epidemia. Vocês sabem que a reforma capuchinha, no século XVI, foi conseqüência da saída de um grupo de frades da estabilidade do convento para atender os atingidos pela peste, na Itália Central. Aqueles frades nunca mais voltaram para o convento, preferindo a proximidade do povo e sua convivência. Então, desde 1999 convivo diariamente com pessoas que vivem com HIV. Agora não mais em forma Casa de passagem, mas na modalidade de Centro de Convivência, ou seja, um espaço onde eles podem estar um dia por semana, para ser acompanhadas e compartilhar com outros que tem a mesma situação, com a finalidade de tornar menos pesada a experiência de viver com HIV.
Pra finalizar, a partir de 2002, faço parte da Pastoral da Aids, serviço que se constituiu depois de seis ou sete anos de reflexão, de aprofundamento e diálogo entre a Conferência Episcopal, o Programa Nacional de Aids, cristãos que viviam e ainda vivem com HIV. Faço parte do grupo responsável pela capacitação de agentes, elaboração de materiais e subsídios que são disponibilizados para as comunidades.
Nesta experiência nasceu, finalmente, a consciência de minha própria vulnerabilidade e a de que a aids nos afeta a todos.
2. A experiência de trabalhar na formação de agentes de pastoral
Quando se decidiu organizar uma Pastoral específica para trabalhar o conjunto das implicações apresentadas pela aids, percebeu-se a necessidade de ter um quadro de pessoas capazes de realizá-lo. Começamos então um processo de formação que exige constante e permanente retomada, pois a própria epidemia se manifesta dinâmica.
Felizmente sempre encontramos pessoas dispostas a fazer este processo de formação para dedicar-se nas comunidades ao trabalho de prevenção e de acompanhamento de pessoas que se descobrem com o vírus.
Normalmente, a capacitação dos agentes segue o seguinte itinerário:
a) Sensibilização: embora as pessoas que se oferecem para trabalhar nesta área já tenham uma prévia noção da realidade que a epidemia envolve, nem sempre estão conscientes dos próprios preconceitos e das resistências pessoas diante da doença e das pessoas que se apresentam com vírus, sem contar nas formas pessimistas de entender a sexualidade. Por isso, fazemos no início do processo de formação, dinâmicas de sensibilização que ajudam a dar nome aos nossos preconceitos, exercícios para perceber as diferenças, para acolher as diferenças e para ver que é possível conviver com o diferente.
b) Informação: seguindo o conselho de João Paulo II, procuramos oferecer "información veraz, completa, oportuna y actualizada" sobre HIV e a aids. Isto inclui dados epidemiológicos do mundo, do país, da região onde atuam os agentes. Além das estatísticas, procurar compreender como são coletados os dados, quais os significados destes números, quais as tendências da epidemia. Ao mesmo tempo, normalmente com ajuda de um profissional, se aprofunda a história natural da doença, suas formas de transmissão, formas de evitá-la, noções da vulnerabilidade, desde individual, social até a programática.
c) Formação Pastoral: compreender a organização da igreja; aprofundar a mística, a espiritualidade e a moral cristã; debater temas que são polêmicos com a finalidade de encontrar respostas pastorais satisfatórias, mesmo sabendo que são provisórias.
d) Organização das Equipes: trata-se de um passo muito importante no trabalho pastoral. Normalmente o trabalho pastoral é desenvolvido por voluntários que se dedicam à comunidade. Para que o trabalho seja efetivo e dê resultados ele precisa ser organizado: quais ações, quando serão realizadas, quem as fará, com que recursos, etc.
e) Promover o protagonismo das pessoas vivendo com HIV. Neste sentido parece muito especial a convocação dos bispos na V Celam: "organizar em todas as igrejas particulares uma pastoral com pessoas que vivem com HIV" ( ver toda a citação).
Espero ter dado uma idéia de como organizamos e realizamos o envolvimento dos cristãos na luta contra a epidemia da aids. Temos claro que nem todos os que são capacitados pela Pastoral tornam-se agentes multiplicadores. Cremos, no entanto que o trabalho não é em vão. Se os participantes tomarem consciência de sua própria vulnerabilidade e adotarem práticas preventivas diante do HIV, teremos alcançado um dos nossos objetivos mais importantes.
Autor: Fr. José Bernardi
Secretario Executivo da Pastoral da Aids
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