Rua Hoffmann, 499 - Bairro Floresta - Porto Alegre/RS - Fone: (51) 33466405
1. Histórico
A Aids é uma realidade desde 1980. Muitas pessoas, organizações e setores da sociedade empenham suas energias, há muitos anos, no controle da epidemia. Esta realidade e a necessidade de envolver um número sempre maior de forças para lutar contra a doença aproximou também o Ministério da Saúde e a Igreja com a finalidade de contribuir na tarefa de contenção.
O primeiro contato foi efetuado através de uma reunião entre o presidente da CNBB, Dom Jaime Chemelo, e o coordenador nacional de DST/aids, Pedro Chequer e o chefe do gabinete do Ministro da Saúde, Octávio Mercadante. Nesta reunião tratou-se da criação de uma comissão da Igreja Católica destinada a catalisar os trabalhos relativos a Aids. Tal comissão foi criada dentro da estrutura da Pastoral da Saúde e permaneceu assim até o início de 2002, quando oficialmente se decidiu e criou uma Pastoral específica, denominada Pastoral de DST/aids - CNBB.
A comissão fez várias reuniões, oficinas de capacitação e o 1º Seminário "Aids e desafios para a Igreja do Brasil", de 12 a 15 de junho de 2000, em Itaici, que reuniu o Ministro da Saúde José Serra, o Coordenador Nacional das Políticas de DST/aids Paulo Teixeira, bem como o Coordenador Adjunto Dr. Raldo Bonifácio Costa Filho, o presidente do Pontifício Conselho da Saúde e representante do Papa, Dom Javier Barragán, o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal Paulo Evaristo Arns, o representante da CNBB, Dom Eugène Rixen, além de religiosos, religiosas e lideranças do movimento de Aids de todo o Brasil, direta ou indiretamente ligadas à igreja.
Com a criação de um serviço específico para tratar das questões de HIV e aids, seguindo a dinâmica própria da organização das pastorais, iniciou-se o processo de implantação nas igrejas locais: paróquias e dioceses.
A criação e a implementação do serviço de prevenção e assistência inicia com a sensibilização de pessoas que se colocam à disposição para levar a temática para dentro de suas comunidades. Por isso, normalmente a Pastoral da Aids começa com um encontro de sensibilização, de capacitação para que os voluntários possam se apossar das informações mínimas para falar e acompanhar as pessoas doentes.
Esta é a tarefa principal da Pastoral: partindo da realidade da aids, tratá-la como um caminho de evangelização. Isto significa que, como agentes de pastoral, nossa missão principal é evangelizar. Evangelizar no contexto da epidemia significa humanizar as relações de tal modo que se auxilie na superação de preconceitos, de atitudes discriminatórias, de exclusão. É também um ato evangelizador a partilha de informações corretas sobre a doença, sobre as formas de transmissão e de prevenção, conscientizando todas as pessoas com que entramos em contato de todos somos vulneráveis e, ao mesmo tempo, todos somos envolvidos por esta epidemia que acaba sendo de responsabilidade de todos.
2. Organização da Pastoral
A pastoral existe de fato na base, nas comunidades, nas entidades especificamente ligadas à luta contra a Aids, onde está o agente de pastoral que realiza o trabalho eclesial de prevenção e assistência. Os agentes são a pastoral. Esta base da rede é muito importante, pois a Pastoral não é uma estrutura com secretarias, escritórios, etc. Trabalho Pastoral é ação evangelizadora dos cristãos comprometidos com esta causa.
Seguindo o jeito de organização da igreja no Brasil, estimula-se a articulação entre os agentes na paróquia, na diocese e no regional. Em cada uma destas instâncias, sempre que possível, organiza-se uma equipe dinamizadora, que providencia materiais de informação, prevê novas capacitações, fica atenta para ver onde é necessário ampliar o trabalho e o número de agentes, avalia com os agentes as atividades e pensa o processo mais amplo da ação pastoral nestes locais. De acordo com a organização da CNBB, em cada Regional escolhe-se entre os bispos um para acompanhar a Pastoral. A equipe regional estará sempre em sintonia com este bispo para o encaminhamento das ações.
Para animar o trabalho em todo o Brasil, a cada três anos, elege-se uma equipe de coordenação nacional, composta com um representante de cada região do Brasil, com um secretário executivo, que dará sede à Secretaria Nacional, o bispo referencial escolhido pela CNBB e um assessor nacional que é escolhido pelo Bispo Referencial.
Estas equipes se reunirão, conforme a possibilidade e necessidade. Pelo menos uma vez no ano, realiza-se uma reunião da equipe ampliada da pastoral, com representantes de cada regional da CNBB, que são 17 no Brasil. Esta atividade normalmente coincide com o seminário nacional, permitindo assim que haja uma caminhada conjunta da Pastoral e, ao mesmo tempo, se garante aos coordenadores uma reflexão atualizada da situação da epidemia, mormente no que se refere à ação da igreja no campo da prevenção, uma das tarefas prioritárias da Pastoral, razão de sua existência.
3. Atuação da Pastoral
A Pastoral de DST/aids - CNBB é um serviço da igreja que atua especificamente no campo das DST/HIV/Aids, procurando dar conta das questões que surgem neste campo e que colocam em relação Igreja e a epidemia que atinge o país em todas as suas regiões, desconhecendo limites de idade, sexo, condição social ou religiosa.
Sensível a esta realidade, a última assembléia da CNBB, aprovou nas Diretrizes para 2003-2006, o compromisso de "Serviço de prevenção ao HIV e assistência as PVHA: a igreja assume este serviço e, sem preconceitos, acolhe, acompanha e defende os direitos daqueles e daquelas que foram infectados pela Aids. Faz também o trabalho de prevenção, pela concretização dos valores evangélicos, sendo presença misericordiosa e promovendo a vida como bem maior" (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2003-2006, n. 123e).
Animados por este compromisso da Igreja do Brasil, a Pastoral de DST/aids - CNBB se organiza paulatinamente nos regionais da CNBB, contando atualmente com uma coordenação representativa das regiões do Brasil, conforme acima referido.
A implantação da Pastoral Da Aids, respeitando solicitação das dioceses e regionais, se dá mediante capacitação de agentes que atuam nos trabalhos de prevenção e assistência, ligados à igreja local.
Além de sua implantação, a Pastoral se propõe a articular e dar visibilidade às entidades ligadas à igreja que fazem ações no contexto da epidemia. Uma das atividades que está sendo desenvolvido pela pastoral é um levantamento de todas as entidades, iniciativas, serviços e práticas da igreja no contexto da Aids. De antemão pode-se afirmar que são mais de 300 trabalhos conhecidos.
Trabalhar no contexto da Aids e assumir a tarefa de prevenir e assistir é um desafio que não pode ser enfrentado isoladamente. É preciso estar articulado e estabelecer parceria com os serviços de saúde organizados e todos os setores da sociedade civil que trabalham as mais diversas especificidades da doença.
Como a epidemia tem alcance mundial e não respeita fronteiras, a Pastoral de DST/aids - CNBB tem sido desafiada a ajudar outros países no aspecto de desenvolver um programa eficiente e eficaz para a contenção da epidemia. Até o presente momento temos colaborado com o Timor Leste, República Dominicana e estabelecido uma rede de contato com outras instituições ligadas à Igreja na América Latina que atuam no campo do HIV/aids.
São inúmeras as dioceses, bem como religiosos, religiosas, padres que solicitam orientação e assessoria na implementação de serviço para acolhida e acompanhamento de pessoas soropositivas-HIV.
Sabemos da complexidade deste trabalho e dos inúmeros conflitos gerados, bem como das múltiplas dificuldades encontradas na relação Aids e pastoral. Por isso, uma das atividades permanentes da Pastoral é o aprofundamento, a reflexão e iluminação bíblica, teológica, antropológica e sociológica. A cada ano estamos publicando um volume contendo as reflexões de teólogos e pastoralistas, que auxiliam na elaboração teórica da prática desta pastoral.
Um dos grandes desafios é buscar permanentemente uma linguagem adequada para formar e informar os cristãos sobre a problemática da Aids. A equipe da Pastoral de DST/aids - CNBB tem se empenhado na elaboração de materiais e subsídios para agentes de Pastoral, coordenadores de grupos, professores e comunidades .
A Pastoral de DST/aids - CNBB, é um trabalho novo, mas já se tornou um serviço importante em muitas dioceses. Presta grande contribuição numa infinidade de comunidades da Igreja católica. É o cristão assumindo seu compromisso de esclarecimento e solidariedade. É a resposta ao apelo de Jesus Cristo na defesa da vida. Em muitos lugares, é o compromisso mais profético e urgente. É sem dúvida, uma das mais corajosa presenças da comunidade cristã.
4. Indicações Práticas para a Ação dos Agentes
Pelo percurso que fizemos até o momento se percebe que não há respostas definitivas e prontas. Assim como a sociedade civil e os serviços públicos de saúde, a igreja tateia alternativas e caminhos para contribuir no controle da epidemia. Elas partem do ambiente de fé, sob a perspectiva da antropologia cristã. Desnecessário dizer que são provisórias, complementares e que não pretendem resolver o problema que enfrentamos. Podem orientar a ação dos cristãos comprometidos, além de fazê-los pensar. Começo com uma pergunta.
4.1 - Como correr, se é caminhando que se aprende a caminhar?
A proposta de Jesus é "sejam santos, como Deus é santo!"(Mt 5,48). Todos os cristãos são chamados a esta vocação, tornando-se, no mundo, sinais do Deus santo.
Ensinamos que a santidade é um caminho, um percurso, um processo, mas temos dificuldade em permitir que as pessoas façam este processo. Imaginamos que todos devam estar já na santidade.
Muitas vezes nos é difícil distinguir o projeto e a obra. O desenho, o projeto indica o que pretendemos construir ou que somos chamados por Deus a ser. A obra é a pessoa concreta em sua situação, em seu lento e gradual processo de realização do projeto de Deus. Esta distinção é fundamental, pois seguindo o modo pedagógico de Jesus, tendo presente o projeto, a utopia, sempre tratamos as pessoas em seu contexto, em sua situação real, onde ela está. Se não partirmos da realidade, jamais a mudaremos.
É por isso que a Aids nos questiona. Sabemos que a doença se transmite, geralmente, por formas que poderiam ser evitadas com a vivência dos valores morais e éticos do cristianismo. No entanto, as pessoas continuam a se infectar, inclusive os cristãos. Por isso cabe as perguntas: quantos cristãos estão preparados, formados, capacitados para esta vivência? Quantos aderiram conscientemente à proposta do evangelho e da igreja? Quantos fizeram processo de amadurecimento que lhes permite vivenciar os valores propostos por Jesus, sem que isto represente uma violência?
Se a realidade ainda não realiza plenamente o projeto, não podemos abdicar de anunciá-lo. Não se trata de estabelecer dupla moral que apresenta uma medida para quem pode e uma para quem não pode. Esta forma de apresentar a proposta de Jesus acaba criando guetos e discriminação, pois significa propor que alguns são os bons, os perfeitos e por isso seguem o evangelho na íntegra. Os outros, coitados, não conseguem, por isso somos condescendentes e permitimos que vivam com outras regras, menos exigentes, pois não conseguem ser perfeitos. A proposta de Jesus para todos é "sejam santos como Deus é Santo!" Os itinerários são diversificados e cada um pode achar-se em partes diferentes deste caminho. Atire pedras no outro, quem não tiver pecado (Jo 8)
Não se pode abstrair o cristão do contexto onde se encontra. É verdade que há um compromisso de cada indivíduo na prevenção contra o HIV. Mas a responsabilidade não é só individual. O conceito de vulnerabilidade social, no meu modo de entender, evidencia exatamente esta questão: o contexto social permite todas as condições para que o sujeito decida livremente sobre o exercício de sua sexualidade, por exemplo? Pensemos nas mulheres e crianças violentadas.
Pensemos nas populações de periferia, na influência da mídia e sua pornografia sobre nossos jovens. Há um contexto social que, de certo modo, "des-responsabiliza" o sujeito, o indivíduo, a pessoa, pois ela não tem todos os recursos e ferramentas necessárias para decidir livremente e, sobretudo, para viver conforme sua decisão.
4.2 - Não omitir informações ou Apresentar toda a informação
Outra ilusão que precisamos vencer, com urgência, é a impressão que todos estão cientes da realidade da epidemia, dos modos de contágio e de prevenção.
O profeta Oséias, em outro contexto, evidentemente, mas que serve "como uma luva" para a nossa realidade disse: "o meu povo morre por falta de conhecimento" (Os 4,6).
É preciso que todos os que se empenham na luta contra a Aids se dêem conta de que "muitos morrem de Aids porque não conhecem as formas de prevenção, não sabem os vários estágios da infecção, ignoram as doenças oportunistas, suas causas e sintomas, desconhecem os modos concretos de evitar o contágio ou de tratar as doenças ligadas ao HIV" (CZERNY, 2004, p. 812)
Isto quer dizer concretamente que se as pessoas não sabem, elas não podem agir. O conhecimento, as informações claras, mesmo em situações de escassos recursos econômicos poderiam fazer a diferença, seja evitando infecções, seja melhorando a qualidade e quantidade de vida das pessoas infectadas.
Nasce desta constatação uma urgente necessidade: informar com todos os meios e recursos disponíveis, em todos os ambientes e oportunidades. Mesmo que saibamos que a informação por si só não seja suficiente para mudar o comportamento e a relação da população com a epidemia, ele é imprescindível. Somente uma população informada realmente pode principiar a portar-se diante da epidemia como um problema que lhe diz respeito.
Para que a população seja informada adequadamente precisamos de pessoas preparadas para esta missão. Os agentes de pastoral necessitam conhecimentos científicos, médicos, éticos e pastorais para abordar a temática e incentivar na população um estilo de vida que considere a presença da epidemia, acolha e acompanhe os portadores de HIV. Creio que, alcançando este nível de preparação, os agentes de pastoral poderão representar um diferencial no combate ao HIV. Como afirma o jesuíta Czerny: "a igreja não presta serviços a um particular grupo de usuários, mas está presente entre e com o povo de Deus. Esta dimensão horizontal é a característica fundamental de uma aproximação dificilmente imitável por qualquer outro sujeito social" ( 2004, p. 814).
Ainda na primeira década da epidemia, o papa convocava os cristãos ao engajamento qualificado no combate da Aids: "e vocês, agentes voluntários de pastoral, que em número cada vez maior dedicam competência e disponibilidade aos doentes de Aids ou estão empenhados na tarefa da educação preventiva, unam e coordenem as forças de vocês, atualizem sua preparação, façam-se promotores, inclusive fora da igreja, de uma ação dirigida a sensibilizar a comunicação social em relação aos problemas vinculados à realidade e à ameaça da Aids" (João Paulo II, 1989).
Dissemos acima que o agente de pastoral precisa dar toda a informação. Arriscaria dizer até aquela de que não lança mão, não utiliza. Como fez recentemente o arcebispo de Porto Alegre, que é também presidente do Regional Sul III da CNBB. Ele escreveu uma cartilha sobre o controle de natalidade, na qual fala sobre o preservativo do seguinte modo: "...a questão dos métodos artificiais - quer da pílula, quer da camisinha - não é questão de vida e morte. Trata-se de uma opção entre o natural e o artificial. Estamos no âmbito dos meios.
A igreja opta pelos meios naturais por serem mais consentâneos com o plano de Deus. Mas quem opta pelos meios artificiais, como todos fazem pela medicina, nem por isso se afasta da Igreja, apesar de não seguir suas orientações neste campo. Bem mais grave é o divórcio. Mas nem ele afasta da Igreja, ou seja, não implica em excomunhão." (2002, p. 24)
É sinal de sabedoria poder contar com os dados e avanços da ciência.
Uma pessoa bem informada, no conjunto de uma comunidade bem informada pode fazer a diferença no controle da epidemia. E se é certo que, no fundo, no fundo, a transmissão do vírus se dá em momentos de intimidade profunda, é nesta intimidade que se realiza o discernimento pela forma de prevenção. Não esquecendo todo o contexto que cria vulnerabilidades, tornando alguns indivíduos mais suscetíveis à epidemia, independente de sua vontade, é preciso encontrar formas de fazer a informação chegar à toda a população.
De posse das informações, as pessoas podem amadurecer para chegar a uma decisão responsável sobre a sexualidade e seu exercício, por exemplo. Na questão do preservativo, concretamente, não creio que se deva gastar muita energia dizendo use ou não use, pois a decisão será sempre da pessoa. Mais importante é oferecer informações capazes de criar comportamentos e estilo de vida responsáveis e, ao mesmo tempo, que se estabelecem como relação de cuidado e de solidariedade.
Ao lado disso, não esquecer de trabalhar as comunidades de que há condicionamentos sociais e culturais que impedem a escolha livre e, por isso, precisam ser trazidos à tona, discutidos, compreendidos e assumidos.
4.3 - Não julgar
Os agentes de pastoral e todos os cristãos precisam, constantemente, lembrar este ensinamento de Jesus. O contexto da Aids envolve situações que se prestam ao julgamento e condenação. Interpretações fundamentalistas e apressadas dos textos da Escritura, foram infelizmente, responsáveis pela falácia teológica que emergiu imediatamente após o surgimento da epidemia.
Não foram poucos os que pretenderam defender a Deus tão logo apareceu a Aids. Não aprenderam com a sabedoria de Jó que não é Deus que precisa de discurso de defesa, mas o injustiçado ou o justo que sofre ou mesmo o injusto que sofre.
Esta ligação entre doença-pecado-castigo que alguns discípulos quiseram ressuscitar (Jo 5), mas Jesus tão sabiamente refutou , infelizmente guiou nossa reflexão teológica, ao menos no início, mas não são poucos que a sustentam ainda hoje.
Lamentavelmente reproduzimos a imagem do Deus terrível e sádico, que não só permite ao pecador pecar, mas o assiste padecendo o castigo que lhe infligiu pelo pecado. Esta imagem de Deus precisa ser revista. A face misericordiosa de Deus, transmitida pela ação e ensinamento de Jesus não permite - aos cristãos - continuar a afirmá-la - muito embora seja uma resposta tentadora à epidemia e aos acometidos pelo vírus. Responsabiliza o indivíduo e justifica a marginalização, o preconceito e nossa "pena" ou nossa benignidade de ir-lhe ao encontro, oferecendo-lhe a possibilidade do perdão, da acolhida e do retorno ao caminho bom, da inocência ou ao menos da abstinência.
Lembro dois episódios da vida de Jesus que podem ser paradigmáticos na decisão de suspender o juízo:
O mal chamado texto da "mulher adúltera", que nós podíamos chamar de "moral de cuecas". Trata-se do episódio em que um grupo de homens piedosos levou uma mulher "surpreendida em flagrante delito de adultério" (Jo 8, 4) e confrontaram Jesus com a prática judaica: "Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres e tu, que dizes?" (Jo 8,5). Jesus, escrevendo com o dedo no chão, foi grandioso ao desautorizar os fariseus e doutores da lei em julgar: "Quem de vocês estiver sem pecado, atire a primeira pedra". Só a Deus cabe o julgamento. O próprio Jesus omite-se de julgar. "Ninguém te condenou? (...) Eu também não te condeno!"
Este é apenas um episódio que aparece naturalmente quando pensamos na ação misericordiosa de Jesus. No entanto, os evangelhos, que guardaram a memória das palavras e feitos de Jesus, estão cheios de "não julguem para não serem julgados" (Mt 7,1); "não julguem segundo a aparência" (Jo 7,24); "a mesma medida que usarem será usada para vocês..." (Mc 4,24). Ao contrário, usem uma medida calcada, transbordante, porque ela será dirigida em vosso favor, pois com a medida com que medirem, vocês serão medidos também! ( Lc 6, 38)
Outra passagem significativa para este contexto é aquela da parábola da misericórdia, que a gente teima em chamar de parábola do filho pródigo. O filho mais novo pede sua parte da herança, deixa a casa paterna e dissipa os bens. Caindo na necessidade, consegue dar-se conta da realidade em que está e volta. O pai o espera e o acolhe na situação em que se encontra. Alegra-se porque volta, não porque se havia tornado perfeito.
Tradicionalmente fazemos uma leitura parcial deste episódio narrado por Jesus. Quase sempre enfatizamos a devassidão do filho jovem e irresponsável. Secretamente aprovamos o sofrimento ao qual fica submetido ao lhe faltar os bens. Da mesma forma que o irmão mais velho olhamos com certo desdém para o que retorna. Manifestamos também certo ciúme e desaprovação em relação ao pai que o acolhe: se soubesse o que ele fez com seu dinheiro!
Dificilmente nos colocamos no lugar do pai que acolhe incondicionalmente ou nos comparamos com o filho mais velho e teimoso que a gente nem sabe se consegue entrar na festa por conta de sua pretensa participação na casa do pai.
Em outras palavras, se lida como o retorno do filho "pródigo" e não como parábola de misericórdia, perdemos de vista o convite a suspender o juízo, a superar a pretensiosa situação do filho mais velho que se sente perfeito por nunca ter saído da casa paterna e a assumir a posição do pai misericordioso que acolhe o filho que retorna sem se importar em saber por onde andara nem o que fizera.
4.4 - Criar ética da responsabilidade, cuidado e solidariedade
João Paulo II, durante sua visita à Tanzânia, ainda em 1990, lançou aquilo que se poderia considerar do ponto de vista teológico, as bases para uma ética da solidariedade. Ele afirmou: "o drama da Aids não ameaça somente algumas nações ou sociedades, mas a humanidade toda. Não conhece fronteiras geográficas, de raça, de idade ou de condição social. Somente uma resposta que tenha em conta os aspectos médicos da doença, as dimensões humana, cultural, ética e religiosa da vida, pode oferecer completa solidariedade com suas vítimas e aumentar a esperança que a epidemia possa ser mantida sob controle ou reduzida" ( CZERNY, 2004, p. 816).
Esta visão ampla nos faz retornar sobre o tema que estamos abordando: vulnerabilidade social. É evidente que o comportamento individual e o risco da infecção que este comportamento inclui constituem as raízes superficiais da epidemia. As causas mais profundas da epidemia têm a ver com a injustiça social, com a vulnerabilidade: pobreza, subordinação de gênero, discriminação, machismo e a desigualdade gerada pela economia do mercado.
A epidemia da Aids está intimamente ligada com a exclusão, que pode ser englobada em três formas de se apresentar: exclusão econômica, social e subjetiva. Desnecessário dizer que a maioria das vezes estas exclusões se sobrepõem sobre um mesmo indivíduo, sobre uma mesma região de um país ou sobre núcleos populacionais determinados. Às vezes fica mais evidente uma das formas, mas geralmente elas estão inter-relacionadas e se auto-alimentam.
A exclusão econômica se manifesta na falta de moradia, no trabalho sazonal, na carência econômica. A população marginalizada pelos baixos salários, pelo desemprego, por morar em áreas pobres e já carregadas de preconceitos, é excluída dos serviços de saúde, de educação formal.
A exclusão social se manifesta na inexistência ou na fragilidade das relações de apoio, nas relações comunitárias, na falta de pontos de referência que sirvam de suporte. Aqui se poderiam elencar todos os tipos de subordinação, de autoritarismo, de violência e na desigualdade nas relações de gênero.
Por fim, a exclusão subjetiva se manifesta no isolamento, na desconfiança das próprias forças, na ausência de perspectivas, no desânimo, no conflito de identidade e na baixa auto-estima.
Todas estas formas de exclusão que tornam os indivíduos e comunidades mais vulneráveis precisam ser enfrentadas. Cuidar da infecção por HIV não será, assim, uma atividade isolada. Ela deverá considerar o conjunto de fatores que envolvem a pessoa e determinam o grau de sua vulnerabilidade. Ao mesmo tempo que se propõe formas de controle da epidemia é preciso alinhavar estratégias para superar os fatores que geram esta exposição. Tal tarefa não poderá ser assumida por uma ou outra instituição. Por isso, cumpre assinalar a importância do estabelecimento de parcerias, de redes e de buscar articular as diversas ações para otimizar os recursos e melhorar os resultados das ações empreendidas.
4.5 - Estabelecer Parcerias e Redes
O presente seminário é uma comprovação desta necessidade e desta busca. Estamos aqui agentes de pastoral, profissionais da saúde, representantes de órgãos governamentais e membros de entidades da sociedade civil buscado estratégias e construindo possibilidades para vencermos a epidemia.
A igreja, especialmente através da Pastoral da Aids, tem incentivado práticas conjuntas e articuladas de vários agentes sociais.
Há um conjunto de ações no qual todos precisamos nos engajar. Limito-me a enumerar as linhas de ação que precisam ser implementadas e reforçadas para vencermos a epidemia, que foram apresentadas pelo Cardeal Barragán, quando da publicação da mensagem do Pontifício Conselho para a Saúde em alusão ao Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2004. O Cardeal convoca todos os cristãos a:
• "apoiar o plano global de combate ao HIV/Aids;
• incrementar a educação e catequese com valores da vida e da sexualidade;
• eliminar toda forma de discriminação aos doentes de Aids;
• incentivar os governos a criar condições adequadas para combater a epidemia;
• favorecer maior participação da sociedade civil na luta contra a Aids;
• solicitar aos países desenvolvidos que, evitando toda forma de colonialismo, ajudem os países pobres;
• reduzir ao mínimo o preço dos medicamentos;
• intensificar as campanhas para evitar a transmissão materno-infantil do vírus;
• oferecer atenção e cuidado especiais às crianças infectadas e proteção aos órfãos da epidemia;
• dirigir maior atenção aos grupos sociais mais vulneráveis".
Creio assim, para finalizar, que no esforço de todos, com a contribuição específica de cada um e de cada grupo, buscando múltiplas respostas, poderemos obter sucesso na luta contra a Aids.
4.6 - Tornar a Igreja espaço de acolhida solidária
Gostaria de concluir estas breves anotações apresentando um desafio à igreja que entra no Terceiro Milênio. É certo que se vive um tempo desafiador, exigente e rico. A comunidade cristã, seguindo sua vocação, é convocada a testemunhar o Deus que anuncia. Especificamente, a ser mãe.
Do mesmo modo que a mãe dá atenção preferencial ao filho que passa por alguma necessidade, doença ou perigo, a igreja precisa amar preferencialmente aqueles homens e mulheres que se encontram em condições mais precárias e suscetíveis de não perceber a presença amorosa do Deus que os criou e sustenta. Não se trata de enumerar quais são as situações em que se encontram tantos seres humanos que esperam uma palavra amorosa, uma mão serviçal e um gesto concreto da parte da mãe igreja.
É tempo de um discurso alegre e positivo. A igreja mãe herdou o evangelho e a tarefa de anunciá-lo. Aquilo que era boa notícia transformou-se, muitas vezes, em palavra que recrimina, intimida e desanima. Agora é tempo de anúncio alegre e encorajador da mãe que não se escandaliza simplesmente com os equívocos dos filhos e filhas, mas é capaz de abrir perspectivas, mostrar o rumo desejado por Deus, desafiando-o para passos decididos em direção à vontade de Deus.
É tempo de servir. Concretamente a mãe precisa ter mãos que servem que dão de comer, que vestem, dão abrigo. Esse é o modo de revelar e anunciar o rosto paterno de Deus que "cuida dos bons e dos maus". Nesse tempo que as estruturas do mundo se fecham cada vez mais aos pobres e despossuídos, uma mão profética deveria aparecer: mão que serve, mão que valoriza, mão que não deixa nu, nem sem casa. As mãos da mãe igreja servindo os pobres do mundo.
É tempo de alargar o abraço da acolhida. Ultrapassando os limites do legal e do justo, superando os muros do lícito e do ilícito, a mãe igreja é desafiada hoje, mais do que nunca, a ser regaço que acolhe, tem compaixão e consola. Muitos homens e mulheres não se mantiveram sempre na estrada reta. As razões são muitas e as explicações outras tantas. Muitos buscam aproximar-se. Oxalá encontrem sempre espaço. Nunca lhes falte acolhida, ouvido, palavra de conforto e carinho. Que a mãe seja como o Pai: "aquilo que é loucura no mundo Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes" (I Cor, 1, 27).
Autor: Fr. José Bernardi
Secretario Executivo da Pastoral da Aids
Sede: Rua Hoffmann, 499 - Bairro Floresta - Porto Alegre/RS - Brasil
CEP: 90220-170 - Fone: 55 51 33466405 - Email: secretaria@redeaids.org