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Um novo vírus, vulnerabilidade social e esperança cristã Hernán Quezada SJ. Um novo vírus tem-se feito presente em nosso mundo, especialmente em nosso país, o vírus A H1N1, vírus da influenza humana, que tem dado sinais de uma rápida transmissão e de uma alta periculosidade para a vida dos seres humanos. Imediatamente, os mecanismos de sanidade no México e no mundo têm começado a operar ações para fazer frente a esta nova emergência de saúde. A partir do anúncio da aparição do novo vírus, a informação nos meios de comunicação foi direcionada sobre nós de forma abundante. Em todos os lugares fala-se desta nova infecção. Surgiram discussões sobre a eficácia das medidas implementadas pelos governos, escepticismo, historias, contos, cadeias cibernéticas, etc. Todos nos perguntamos como evitar o contagio? Como enfrentar a enfermidade? O quanto é grave? O que está acontecendo? Onde está a verdade? As ações mundiais vão desenvolvendo-se com a finalidade de frear esta eminente pandemia e mitigar o dano à humanidade; tem que se criar uma vacina, habilitar o acesso aos fármacos, conseguir dinheiro, desenvolver políticas e garantir os serviços de saúde entre muitas outras coisas. Uma amiga faz alguns dias, convidava a refletir em meio à crise dizendo: “por que ficamos doentes”? Ela assinalava: “e junto com isto ficava pensando o que dizem: “quando alguém fica doente, quer dizer, que o corpo está nos dizendo alguma coisa e penso no que nos quer dizer nossa terra, nosso país, nosso mundo”. Suas palavras e outras, que tenho lido neste dias, chamaram-me a atenção e motivaram-me esta reflexão. Por que ficamos doentes? Podemos nos perguntar: por que ficamos doentes? Que é a doença? Desde o século XIX têm prevalecido dois conceitos de enfermidade: um conceito chamado ontológico e outro chamado fisiológico. O primeiro afirma que a doença vem de fora, tem uma existência distinta ao organismo, entra no organismo sadio e o transforma num organismo doente. O segundo conceito sustenta que a enfermidade é uma manifestação de processos internos alternados. Dentro das discussões contemporâneas de enfermidade encontramos o conceito biomédico que afirma que a doença é um tipo de estado interno que diminuem a saúde, ou seja, que reduz uma ou mais capacidades: a enfermidade indica desvio do normal (em sentido fisiológico).[1] Algumas vezes ficamos doentes de forma inexplicável, ou em outras claramente atribuímos a enfermidade à entrada de um vírus, ou de uma bactéria; porém, ainda nestes casos tem fatores que determinam que somos vulneráveis à infecção. No fundo ficamos doentes porque somos vulneráveis, e somos vulneráveis quando alguma coisa falha em nosso interior, quando nos descuidamos, deixamos de dormir, de comer, quando estamos triste. Ficamos doentes quando estamos expostos a contextos “doentios”: contaminação, stress, troca de temperatura, etc.
Castigo de Deus?
Olhando numa visão de fé, a enfermidade, especialmente as epidemias, tem sido identificadas nos textos sagrados, e ainda hoje em amplos setores da sociedade, como conseqüência do pecado do povo, que tem merecido o castigo de Deus: Uma peste eu lhes mandei, “ ( Am 4, 10) Os cristãos, iluminados pela Revelação em Jesus, afirmam que a enfermidade não é um castigo de Deus. A propósito da Aids, a Conferência dos bispos da África austral, assinalavam: A Aids nunca deve ser considerada como um castigo de Deus. Ele quer que sejamos sadios e não que venhamos a morrer de Aids. Este é para nós um sinal dos tempos, que desafia a todos os povos a uma transformação interna e a seguir a Cristo em seu ministério de cura, misericórdia e amor.[2] Estas sabias palavras dos bispos deixam claro que Deus não castiga; mais esta atribuição errônea do castigo, como algo vindo de Deus, o devemos de interpretar desde a experiência de Fe do povo de Israel. Surge da sensação e da consciência de homens e mulheres, de que alguma coisa na sociedade está mal, de que a Aliança com Deus se rompeu, tem sido alterada a função interna do sujeito social, algo tem-se rasgado, há um pecado coletivo, social. “Israel vende ao justo por dinheiro e ao pobre por um par de sandálias; pisoteiam os fracos no chão e desviam o caminho dos pobres”. (Am 2, 6 – 7) Tendemos muito comumente a ficarmos em uma leitura reduzida do pecado, pensar imediatamente no rompimento do culto, a moral sexual, falar de meu pecado, teu pecado y seu pecado; intentamos escapar de nossa identidade de Povo de Deus, do povo que reconhece que têm atuado em prejuízo de outros, que se tem escravizado a outros deuses; dinheiro, poder, imagem. Temos de reconhecer como sociedade o pecado estrutural, o pecado social no qual vivemos imersos e que nos asfixia, especialmente aos mais pobres e excluídos. Já denunciavam profeticamente os bispos latino-americanos reunidos em Aparecida: “Uma globalização sem solidariedade afeta negativamente aos setores mais pobres. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e opressão, se não de algo novo: a exclusão social. Com ela fica afetada na sua mesma raiz o pertencimento à sociedade na qual se vive, pois já não se está embaixo, na periferia ou sem poder, se não que se está fora. Os excluídos não são somente “explorados” se não “sobrantes” e “ descartáveis”.[3] Ao reconhecermos parte de um sujeito social podemos reconhecer o prévio á enfermidade, “nosso pecado”, isso que tem sido resgatado, isso que internamente não está bem e que nos faz vulneráveis. Qual tem sido nossa vulnerabilidade? Por que tem surgido este novo vírus? Por que temos adoecido? O que nos tem feito vulneráveis Se olharmos para atrás, até o nosso passado recente, podemos encontrar muitos sinais, não só próprios de nossas cidades, ou de México, se não próprios do mundo. Sinais que mostram que alguma cosa não têm estado bem, que alguma coisa tem se estragado no interno, na função de nosso mundo. Será que vivemos na injustiça? Será que pisamos o débil? Será que tem sido mais as más noticias que as boas? Violência, medo, corrupção, guerra contra o narcotráfico, desconfiança, crise eleitoral, crise econômica, desemprego, desigualdade, migração, violação dos direitos humanos, e inclusive a já quase esquecida crise alimentaria. Alguém expressava em uma pagina da internet a sua “gratitude à influenza” por fazer-la esquecer os asfixiantes problemas que vivemos no México. Percebesse aperto, tristeza, muita desconfiança nas instituições. Inundam-nos os correios que acusam um plano perverso para desviar nossa atenção, para nos submeter, para nos enganar. Como não sentir isto, se por muito tempo tem nos mentido e enganado? A quem crer? Em quem confiar? Será que faz muito que estamos tristes? Será que a corrupção e a desigualdade nos têm feito vulneráveis? Para onde virar o coração? Onde encontrar esperança? Ainda é possível curar? É possível a conversão? È possível a cura? Os cristãos e cristãs cremos que é possível a “conversão”, é possível cambiar o rumo, pegar a direção contraria, é possível a cura. Os seguidores de Jesus cremos que o pecado estrutural não tem a última palavra. No mesmo Antigo Testamento, onde o povo atribui a Deus o castigo a seu pecado, o mesmo povo reconhece a voz de Deus que lhe chama á conversão: “Assim fala o Senhor: Observem o direito e pratiquem a justiça...” (Is 56, 1) Deus tem uma promessa com seu povo: “Eu vi o seu caminho, mais vou curá-lo, guiá-lo e oferecer-lhe consolação"; (Is 57, 18) Deus pede a todos e todas: “acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente...”(Is 58,6-7) A certeza cristã da conversão, fundada na experiência da Ressurreição, reconhece um caminho para que esta seja possível: conhecimento, arrependimento e reparação. Mediante o conhecimento advertimos o injusto em nossa ação e em nosso mundo e nos reconhecemos injustos e culpáveis, é um primeiro passo; mais se ficarmos aqui, a experiência da culpa pode nos encher de desespero e cinismo. Há de seguir o arrependimento: não só se reconhece a culpa, se não que se rechaça a injustiça, motivado este arrependimento pelo amor, e se estende na reparação. Intenta-se reparar o que tem sido quebrado, constrói-se a justiça, se renova o coração, rompem-se os egoísmos e nos abrimos aos outros. [4] Nossa tarefa Depois deste percurso retornamos ao momento atual, á enfermidade, às ações. Se nossas ações contemplam que o problema reside, unicamente, em um vírus que está infetando à sociedade, e para isto desenvolvemos somente estratégias de contenção e de mitigação, pouco poderemos fazer. A propósito da infecção por este novo vírus, temos que olhar por que fomos vulneráveis, por que encontrou nesta sociedade, neste entorno, todas as condições para desenvolver-se. O olhar deve focar-se nas raízes do problema, em isso que não está indo bem; aí é onde devem ser dirigidas as ações. Alem da atenção do impacto, e da contenção do problema tem que se trabalhar para erradicar a vulnerabilidade. Isto há ser concebido a longo prazo, intersectorialmente, com um olhar holístico da epidemia. Para todas e todos nós fica o desafio da análise, da reflexão e do compromisso expressado em ações pessoais e sociais. Somente desde a erradicação da desigualdade, da violência, da pobreza e da injustiça, estaremos seguros de que vamos curar e nunca mais voltaremos a ficar doentes. Soa quase impossível, ingênuo, pensar que será possível um mundo assim. Más com os olhos da fe, que olham o que não temos, que crêem no que não tocamos e esperam com alegria, podemos crer que é possível restabelecer a justiça, construir o bem comum. Tal vez essa é nossa missão: denunciar o que causa a enfermidade, o que nos tira a vida, e anunciar com alegria em meio as crises, a esperança, comprometidos em ações que vão construindo o projeto de Reino de Deus anunciado por Jesus. Este novo vírus pode ser a possibilidade para virar o rumo, para refletir individual e coletivamente em onde temos colocado o coração, em quem temos depositado a confiança. Uma solidariedade que se estende entre nós começa a ser sentida, que se mistura na confusão e o medo. Tal vez faça muito tempo que não sentíamos tanta necessidade de não estar sozinhos, de confiar, de crer e de buscar a verdade. [1] Cfr. Pérez Tamayo, R. (1988). El concepto de enfermedad II. En El concepto de enfermedad II. México: Fondo de cultura económica. [2] A Message of Hope to the People of God from the Catholic Bishops of South Africa, Botswana, and Swaziland, 30 de julio de 2001. [3] V Conferencia General del Episcopado Latinoamericano y del Caribe, Aparecida Documento Conclusivo, No.65, Aparecida Brasil, 2007. [4] Cfr. Weber Helmut, Teología moral general, Herder, 1994.
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