Porto Alegre, 08 de de 2010

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América Latina e Caribe / RECALAC-SIDA

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Documentos

Quarta, 19 de novembro de 2008

Carta de Porto Alegre

Autor: Integrantes do I Simpósio Latino-Americano e Caribenho

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Carta de Porto Alegre

 Aproximou-se, viu e teve compaixão... (Lc 10, 33)

Nós, católicos comprometidos na luta anti-HIV/Aids, participantes de grupos e organizações religiosas e não religiosas, queremos compartilhar as reflexões de cinco dias na cidade de Porto Alegre, Brasil, em torno da prática pastoral no campo da aids. Desejamos expor nossas percepções, sentimentos e ações à nossa Igreja, aos cristãos de outras Igrejas e ao mundo.

Estamos conscientes e preocupados com o crescimento da aids em nossos países, a situação das pessoas que vivem com HIV/aids e a insuficência das ações de nossos governos, da sociedade civil organizada e das igrejas para mudar esta realidade.

Reconhecemos que o crescimento da pandemia está ligado à pobreza e à injustiça social. Segundo o último informe do Unaids (2004), cerca de 1,7 milhões de pessoas vivem com HIV/aids na América Latina e 440 mil no Caribe.

O acesso universal aos medicamentos para atenção à aids não é uma realidade em todos os países. As políticas da maioria dos Estados não têm sido suficientes e adequadas para frear a epidemia. Existe a ausência total de uma política intenacional que gere ações solidárias entre nossos países para enfrentar um problema global que requer ações sem fronteiras.

Como Igreja católica reconhecemos que temos respondido à pandemia, porém nossas respostas foram insuficentes, nosso discurso não tem sido sempre o mais adequado. É necessário avançar na compreensão da realidade das pessoas que vivem com HIV/aids.

Reconhecemos que as feridas e a dor de nossas irmãs e irmãos afetadas pelo HIV/aids, não são só provocadas pelo vírus, mas por outras causas diversas, como a discriminação e o estigma.

Nós, considerando a profunda vocação humanista da Igreja buscamos responder à pandemia. Porém como instituição humana, nossas seguranças e verdades absolutas são questionadas. Hoje, a voz, a vida e a dor de nossos irmãos e irmãs afetados pelo HIV/aids nos obrigam com humildade cristã a escutar, a reconhecer nossa humana insuficiência e a refletir sobre possíveis novas respostas.

Por isso declaramos:

1.       A aids é um problema econômico, político, cultural e religioso que exige a resposta imediata da Igreja católica ante a sociedade civil e os governos. Resposta que vai além da ação dos Ministérios da Saúde.

2.       Em muitas de nossas ações, como o bom samaritano, no evangelho, nos aproximamos e levantamos o ferido, o sofredor; tratamos de suas feridas, lhe damos de comer; compartilhamos com ele o que temos, cuidamos dele, nos comprometemos. Os católicos queremos dar um salto qualitativo em nossa ação. Além de cuidar do ferido, devemos conhecer o porquê de suas feridas. O seguimento de Jesus nos exige ações proféticas, denunciar as causas e gerar propostas para transformá-las.

3.       Urge aumentar em todos os níveis a informação, a educação, a resposta e a participação da Igreja católica na América Latina e Caribe.

4.       Devemos fomentar solidariedade intenacional e o intercâmbio de experiências entre os países pobres.

5.       Os católicos nos perguntamos hoje, frente a presença da aids no mundo e a realidade das pessoas que vivem com HIV/aids: que assumir? Que deixar? Que propor? Isto, para poder traçar nosso fazer, que deve privilegiar o humano e a liberdade que nos fazem homens e mulheres à imagem e semelhança do Criador.

6.       Nossas ações devem buscar o bem comum, que exige inclusão, escuta e respeito ao diferente. Tudo isso reconhecendo que somos todos criaturas de um mesmo Criador, vulneráveis e convivendo num mundo com aids.

7.       Urge refletir e discutir, aberta e cientificamente, sobre a realidade da aids e os meios efetivos de prevenção.

8.       Exigimos dos governos leis e políticas que garantam a todos o acesso aos medicamentos para o tratamento da aids.

9.       Exigimos que os programas e políticas para enfrentar a aids se centrem na realidade das pessoas que vivem com HIV/aids e se lhes incluam no desenho e tomada de decisões das mesmas.

10.    Pedimos o interesse e sensibilidade de nossos pastores ante à aids e às pessoas afetadas. Solicitamos-lhes informar-se, refletir e colocar nas agendas pastorais o tema da aids como uma das prioridades.

11.    Preocupa-nos, ainda, o desconhecimento que um grande número de católicos tem sobre o HIV/aids. Desconhecimento que provoca exclusão, marginalização e violação dos direitos humanos das pessoas que vivem e convivem com HIV/aids.

 Como seguidores de Jesus nos comprometemos a gerar espaços que permitam a informação e a reflexão da Igreja católica sobre HIV/aids; a promover ações que respondam aos desafios trazidos pela pandemia em nossos países; que contribuam a erradicar a aids e a melhorar a qualidade de vida de nossos irmãos e irmãs que vivem com HIV/aids.

Conscientes de que vivemos num mundo com aids e de nosso compromisso cristão, pedimos a Deus coerência com o evangelho.

Porto Alegre, 08 de julho de 2005.

Dr. Hernán Quezada, SJ, Programa de Estudios Sociales en VIH-sida, Universidad Iberoamericana Puebla, Jesuitas de México(México); Yadira Bonilla, HUMANITAS, Hogar de la Esperanza(Costa Rica); Dr. Rolando Figueroa, Asesor Técnico Regional Salud, Agua y Saneamiento CRS-LACRO(El Salvador); Carmen Molina, Caritas Honduras (Honduras); Hmna. Graciela Solis, Secretaria Ejecutiva Departamento Episcopal de Pastoral de la Salud Perú(Perú); Antonio Carlos de Souza Pires, Foro Mercosur ONG/Aids, Pastoral del sida Brasil, Grupo Asistencial SOS Vida(Brasil); Dr. Juan Carlos Carazas, Responsable Relación con Donantes/Salud(Bolivia); Fray Sidimar Negriri, Orden de los Frailes Capuchinos(Republica Dominicana); Fray Antonio Lesera Banaclochs, Capuchino, Asociación Unidos en la Esperanza, Cartago(Costa Rica); Ketty Ureta de Medranda, Frente de Apoyo VIH sida(Ecuador); Dr. Roberto Cisneros, Responsable de Salud, Caritas (Nicaragua); Dr. Daniel Murphy (Timor Leste); Hmna. Ercia Maria do Rego Leao, Fdcc. (Timor Leste); Hmna. Inacia Mafalda Fátima, Carmelitana(Timor Leste); Sra. Maria de Fátima F. Ximenes(Timor Leste); Sr. Carlitos Freitas(Timor Leste); Dr. Juan Carlos Carazas, Catholic Rilief Services(Bolivia); Stella Maris Dominguez, Hmnas. Franciscanas Misioneras de María(Uruguay); Hmna. Rita de Jesus Miranda, Pastoral da Aids(Brasil); Sra. Marina Herenia Taveras Morales, Casa Rosada – Hogar de acogida para niños com VIHsida (República Dominicana); Sra. Maria Inés Urta Bares, Fransida(Uruguay); Pe. Bernardo Vergara, c.j.m, Director Fundación Eudes(Colombia); Hna. Sandra Puchana Garcia, religiosa Buen Pastor(Colombia); Jesus Abrahan Giles Rodriguez, Frente de Apoyo a las personas portadoras de VIH-sida(Ecuador); Mons. Eugenio Rixen, Presidente da Pastoral da Aids(Brasil); Dr. Raldo Bonifacio Costa Filho, Diretor de Projeto Ministério da Saude(Brasil); Frei José Bernardi, Província dos Frades Menores Capuchinhos do Rio Grande do Sul(Brasil); Frei Luiz Carlos Lunardi, Casa Fonte Colombo – Centro de Promoção da Pessoa Soropositiva-HIV(Brasil); Sra. Cristiane Saraiva Marins, Cozinha Comunitária do Forum ONGs-Aids do Programa Fome Zero Porto Alegre(Brasil); Osman Bernardi, Secretaria Pastoral da Aids(Brasil); Dra. Mirtha Sendic Sudbrack, Centro Internacional de Cooperação Técnica em HIV/Aids (Brasil/Unaids). 

 

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